Letras e Vozes no Globo Sul: Perspectivas Decoloniais

Coordenação:

Prof. Dra. Juliana Pimenta Attie (UNIFAP)
Prof. Dr. Rubens da Cunha (CECULT/UFRB)
Prof. Dra. Viviane Ramos de Freitas (CECULT/UFRB)

Ementa:

Boaventura Santos afirma que uma "epistemologia do Sul assenta em três orientações: aprender que existe o Sul; aprender a ir para o Sul; aprender a partir do Sul e com o Sul". Por outro lado, Nelson Maldonado-Torres propõe uma "virada decolonial" como um movimento teórico, prático, político e epistemológico de resistência às lógicas e aos domínios da colonialidade. Em campos diversos, livros como A queda do céu de Davi Kopenawa e Bruce Albert; Pode o subalterno falar? de Gayatri Spivak; Crítica da Razão Negra de Achille Mbembe; Metafísicas canibais e A inconstância da alma selvagem de Viveiros de Castro, ou as obras de Silviano Santiago e Walter Mignolo, de Santiago Castro-Gómez e Ramón Grosfoguel, entre tantos outros, fazem parte dessa nova perspectiva de se entender, estudar e afirmar as epistemologias de fora do eixo estadunidense ou europeu como contraponto ao poder hegemônico, tanto científico e filosófico, quanto cultural e artístico, do hemisfério norte. A colonialidade é conceituada por Mignolo (2017) como "o lado mais escuro da modernidade", uma vez que carrega consigo o desenvolvimento de práticas econômicas e políticas que tornavam vidas humanas descartáveis e inferiores. O estudioso parte do pensamento de Quijano (1992), que, por sua vez, define como colonialidade a lógica que funda e estrutura a civilização ocidental desde o Renascimento até a contemporaneidade. Tal lógica se sustenta no que Quijano (1992) denominou "matriz colonial de poder", que se constitui de quatro domínios inter-relacionados: "controle da economia, da autoridade, do gênero e da sexualidade, e do conhecimento e da subjetividade". Essas quatro cabeças seriam ainda controladas por duas "pernas": o fundamento racial e patriarcal do conhecimento. Nesse sentido, Mignolo (2017, p. 6) observa que "o pensamento e a ação descoloniais focam na enunciação, se engajando na desobediência epistêmica e se desvinculando da matriz colonial para possibilitar opções descoloniais - uma visão da vida e da sociedade que requer sujeitos descoloniais, conhecimentos descoloniais e instituições descoloniais". Lugones (2003), em Pilgrimages/ Peregrinajes, também destaca a urgência do posicionamento e da perspectiva descoloniais para que os povos que sofrem ainda hoje consequências da colonização possam reconstruir sua identidade e adquirir representatividade. A estudiosa argentina classifica como narcisista o olhar do colonizador que constrói a imagem do colonizado a partir do seu reflexo, privando, assim, o outro, aquele que é visto, de possuir uma identidade independente e, mais que isso, em conformidade com a cultura a que pertence.
Outro ponto que dialoga com as questões decoloniais é a premissa de entender o contemporâneo não apenas como temporalidade, mas como espacialidade, como território. Recentemente foi lançado o livro "Contemporaneidades Periféricas", organizado pelo professor Jorge Augusto. No ensaio introdutório do livro, o professor discute justamente os diversos olhares sobre contemporâneo. Ele pode ser visto pelo senso comum como algo atual, moderno, tecnológico. Há também o contemporâneo como um "período histórico posterior à modernidade" não como sinônimo de pós-moderno mas como substituição do termo. Por outro lado, há também os que pensam o contemporâneo como sinônimo de pós-moderno. O contemporâneo também pode ser, nas palavras de Jorge Augusto (2018, p 34), "sistematizado como categoria organizativa de um conjunto de procedimentos estéticos no campo da arte, da literatura e da crítica". Para Jorge Augusto (2018, p. 35), "em todos esses casos não é a modernidade, como período histórico, a quem o contemporâneo remete como devir, mas à modernidade europeia", ou como diria Anibal Quijano, (apud AUGUSTO, 2018, p. 35) a consequência do contemporâneo que mimetiza o desgastado pós-moderno é reproduzir as colonialidades do poder". Assim, depois dos avanços teóricos da decolonialidade, o conceito de contemporâneo entrou em disputa. Segundo Jorge Augusto (2018, p. 37) talvez seja a primeira vez que "na narrativa histórica do ocidente as periferias do capitalismo e da modernidade podem disputar, em tempo real, uma noção teórica que organiza o tempo e aglutina séries de acontecimentos, na construção dessa história, evitando com isso, os apagamentos, silenciamentos e interdições." Trata-se, portanto, de um diálogo entre os diferentes que não é dialético, mas tensivo e extensivo. Um exemplo disso, é uma perspectiva teórica que extrapola o contemporâneo como algo relativo apenas ao tempo. O contemporâneo, para Agamben (2009, p. 59) é "uma singular relação singular com o próprio tempo, que adere a este e, ao mesmo tempo, dele toma distâncias". Para pensarmos a produção artística contemporânea fora dos eixos hegemônicos, é preciso tencionar e alargar os limites do que é contemporâneo, que além de temporal é "decididamente, uma noção territorial" (AUGUSTO, 2018, p.40). Pensando aqui o território dentro da perspectiva não estável, com temporalidades e conjunturas diversas e que resiste às homogeinizações universalizantes, como propõe Stuart Hall. Portanto, essa premissa trabalha não apenas com as questões decoloniais, mas com a perspectiva de que o contemporâneo é o que está nas periferias, fora dos eixos econômicos, é também o que ficou fora da tradição.
Sendo assim, este simpósio propõe-se a receber reflexões e discussões sobre como a literatura, o cinema, o teatro e as artes em geral podem ser instrumentos de resistência, de enfrentamentos do cânone, de força/resgate de outros saberes, de organização/expressão dos movimentos sociais (negros, indígenas, mulheres, homossexuais, periferias etc.) e podem impactar e ser impactados pelas perspectivas decoloniais. Interessa-nos também trabalhos que abordem as formas como as artes estão enfrentando as censuras, as repressões, as agressões a que estão submetidas, sobretudo, diante do avanço do conservadorismo político, estético e social na América Latina.

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