O Locus das Festas Populares: Um Olhar Interdisciplinar

Coordenação:

Prof. Dra. Francesca Maria Nicoletta Bassi Arcand (CECULT/UFRB)
Prof. Dr. Sérgio Ricardo Oliveira Martins (CECULT/UFRB)
Prof. Dra. Cleidiana Patrícia Costa Ramos (UNEB)

Ementa:

Ao partir da premissa de que o Recôncavo da Bahia é uma região em que as atividades relacionadas às manifestações culturais e festivas possuem uma importância ímpar, seja para a sociedade local, seja para a economia regional e microrregional, propõe-se com este GT um espaço de discussão sobre diversas realidades festivas populares presentes no Recôncavo, na Bahia e no Brasil. A dimensão festiva popular é conhecida por compreender manifestações associadas às devoções religiosas (católicas, afro-brasileiras, sincréticas), ou marcadas pelos folguedos de espírito lúdico. Festas de terreiro, festejos do ciclo natalino, lavagens de igrejas, presentes de Iemanjá, trezenas de Santo Antônio, festas juninas, performances e manifestações carnavalescas e lúdicas. São expressões populares diversas que produzem linguagens específicas e carregam frequentemente cosmologias, ontologias, estéticas, tecnologias e linguagens particulares. As festas regionais no Brasil têm mostrado uma significativa expansão, viabilizada pelo engate cada vez mais estreito entre as esferas da produção cultural e da economia, de modo que muitas manifestações populares têm se inserido num circuito ampliado de entretenimento e lazer. O debate, portanto, contempla também como as festas populares, cujo caráter é geralmente cerimonial, ritualístico ou lúdico, se articulam com lógicas de entretenimento e práticas mercantis, experimentando nas últimas décadas uma complexificação nos seus fazeres e dinâmicas de organização, à medida que estabelecem interfaces com mercados (gastronômico, hospedagem), transportes, poder público, etc.
Nesse sentido, na perspectiva teórico-metodológica deste GT, falar das festas regionais, por meio das suas diferentes articulações, implica considerar um conjunto de relações complexas que, necessariamente, abarcam símbolos, linguagens e tecnologias em constante devir, que tanto funcionam como mediadoras dos vínculos sociais locais (AMARAL, 1998) quanto levam ao estabelecimento de articulações com outras esferas, gerando novas tensões.
O conceito de festa está fundamentado nos estudos de Perez (2012), que faz um deslocamento da "festa-fato" para a "festa-questão", e pensa a festa como fenômeno causador da vida coletiva. Neste GT, interessa-nos não tanto o que a festa pode ser, mas o que a festa pode fazer. Para isso, pensaremos seus pontos de fuga e seus devires. Nossa proposta também se fundamenta no conceito de multiverso de Bruno Latour (2008), cuja abordagem deve mobilizar a noção de "multiverso", no intuito de promover articulações interessantes entre fenômenos díspares. É nesse sentido que se busca a interdisciplinaridade, entendida aqui como construção e prática de relações dialógicas, divergentes e convergentes, entre distintos olhares disciplinares. Logo, torna-se imprescindível o intercâmbio entre diferentes enfoques teóricos, metodológicos e epistemológicos. A interdisciplinaridade no processo investigativo, muitas vezes, implica a edificação de novas metodologias e epistemologias de análise, entendimento que coaduna como o diálogo experimental, por meio do qual, diante de fenômenos complexos, intenta-se compreender e modificar (PRIGOGINE, STENGERS, 1997).
Considerando ainda como muitas festas regionais se organizam e se realizam, ressalta-se o urbano, isto é, o espaço organizado por uma socialização marcada pela predominância dos valores de troca, em uma gama variada de atividades de consumo (comércio, serviços e entretenimento). O entendimento da cidade aqui não se restringe à ideia comum de localização ou concentração espacial de construções, verticais e/ou horizontais. Tampouco, tem-se aqui uma concepção dicotômica e simplificadora de que a cidade contém apenas o urbano, fenômeno que acena com espacialidades e temporalidades maiores que a cidade.
De fato, mesmo as menores cidades vão incorporando as demandas modernas de distintas origens, justapondo-as às tradições locais, gerando ambivalências que, cada vez mais, marcam e diversificam os ritmos e normas sociais, como também as disposições emocionais e intencionais dos agentes. O debate deste GT inclui, consequentemente, apreender também a dinâmica das interações que realizam os fenômenos urbano e rural, considerando os diversos modos humanos de existir, organizar e se relacionar com o espaço e o tempo. Nesse sentido se, por um lado, fluxos e interações materiais e imateriais flexibilizam limites territoriais, por outro, festas podem delimitar territórios, visto que festa e lugares se perfazem. Festas e cidades se afetam mutuamente; a cidade também se constrói por meio de eventos festivos, da mesma forma que as festas se relacionam diretamente com a dinâmica identitária e com o contexto onde se realizam.
O GT acolhe trabalhos que ingressem no mundo multiverso da festa e indaguem sobre suas superposições com diversos fenômenos sociais, estéticos, institucionais, patrimoniais, públicos e políticos, entre outros; que discutam sobre como as festas mobilizam processos mnemônicos, simbólicos, performáticos, estéticos, afetivos, sociais e políticos, segundo uma inventividade da cultura (WAGNER, 2010) capaz de captar elementos locais e globais para a encenação festiva. Acolhe também trabalhos que pensem sobre as maneiras que o corpo festa se articula com a cidade, num espaço-tempo de relações e mútua afetação, em que espacialidade e temporalidade urbanas expressem modos de viver, trabalhar e existir, como vida social e econômica ou como cotidiano de fazeres e saberes ritmados em função, basicamente, da oferta e consumo de diversas mercadorias e serviços.

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